domingo, 10 de fevereiro de 2008

MUDANÇA!

Amigos leitores,

O The Conte Sessions está de mudança. A partir de agora, só no novo endereço:

http://thecontesessions.wordpress.com

Ainda não está tudo pronto, mas já dá pro gasto.

Abraços!

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

She is just fifteen and you should know what I mean

A verdade é que a lição de McLuhan nunca foi tão válida. O meio é a mensagem, e as implicações desse conceito são cada vez mais profundas. De resto, como explicar a multidão que lotou o Milo ontem para ver o show de uma garota que tinha aberto um show do Vanguart e botado quatro canções no MySpace?

Se a esse ponto o nome Mallu Magalhães não diz nada pra você, saia da bolha. A moça (que você já sabe que tem 15 anos e tudo o mais) já apareceu na TV, no jornal, no rádio, em trocentos blogs e conta, às 17h54 do dia 8 de fevereiro, 120.390 execuções de suas músicas no site – 3.532 só hoje. A multidão já caiu no maniqueísmo barato do choque entre “o fenômeno que balançou o mundo indie” – seja lá o que isso significa – e “muito barulho (ou ‘muito hype’, já que é hype falar ‘hype’) por nada”. Mas e aí, qual é a real?

A real é que deter-se única e exclusivamente sobre a música de Mallu é cair numa frieza asséptica travestida de razão desmistificadora. Sim, ela é uma compositora talentosa que já mostrou que sabe trabalhar muito bem em cima de suas referências – e que belas referências, diga-se. Segurou a bronca de um Milo literalmente lotado, quase uma arena de briga de galo (com gente ávida por sangue, não duvidem).

Impressiona, de cara, a desenvoltura que ela esbanja frente a tanto assédio e tantas coisas ditas a seu respeito. Nada, porém, que surpreenda. Por quê? Pela simples razão de que Mallu é de verdade. Esbanja (se é que se pode usar o termo “esbanjar” para alguém aparentemente tão sossegada com tanto barulho) despretensão. Não é um produtinho empurrado goela abaixo por uma gravadora qualquer atrás de cifrões das mesadas dos jovens que se “identificariam” com ela. Aliás, falar em “gravadora” nesse caso já é olhar pra frente...

Veja Mallu no palco e perceba o quanto essa garota esperta e com ares de hiperatividade parece estar se divertindo. Rock’n roll não é, ou deveria ser, isso?


Se ela tivesse dez anos a mais não estaríamos discutindo nada disso e esse post seria sobre o Beirut, o Panda Bear ou qualquer outra coisa. Mas ela não tem, e aos 15 anos nem esse colunista nem você estávamos fazendo música dessa qualidade, nem muito menos lotando uma festa da Peligro. Só isso já a coloca quilômetros à frente de boa parte do que toca nas rádios e nos canais que costumavam tocar música e que hoje apostam em programas imbecis para jovens imbecis.


(Foto: Roubada do orkut de Mallu)

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Ska ska ska!

O colunista admite que anda relapso, mas garante que está em franco processo de regeneração. Não desistam do blog!

Enquanto isso, um clipe entre os mais queridos deste colunista. A Message to You, Rudy, dos The Specials. Singeleza, suingue e muito - muito - estilo. Com direito até a solo de trombone. Uma jóia entre outras belas canções da banda; Gangsters, Ghost Town e Too Much Too Young são alguns dos maiores clássicos do ska.

Os Specials provaram que música e militância podem andar juntas e redundar em algo divertido. Bem divertido.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Beleza que dói

Há exatos 30 anos a Joy Division fez seu primeiro show com este nome (após abandonar o antigo "Warsaw", na discoteca Pips, em Manchester. Com a palavra, Deborah Curtis:

"(...) Tocaram o que pareceu muito pouco tempo para um público que finalmente aderira à aura especial da Joy Division. Eu estava sentada no alto das escadas sobre a pista de dança e reparei num fã que correu à frente do palco e apanhou rapidamente uma lista caída dos temas, escrita nos grandes rabiscos de Ian. Achei graça ao facto de alguém querer coleccionar aquilo quando só tinham pago sessenta libras à banda para tocar." *

Era o início de um vôo intenso e curto - em termos de "vida" da banda. A mitologia acerca da banda, porém, só cresceria com o passar dos anos. A poesia rasgada e doída de Ian Curtis é universal, atemporal, pois toca a essência de qualquer um que tenha um arremedo de coração.

Nossas frustrações são do tamanho dos nossos sonhos. Ou da ausência deles.


* Deborah Curtis, Carícias Distantes. Lisboa: Assírio & Alvim, 1996.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

La Moreau


Hoje, nada de rock. 80 anos de vida. 60 de carreira.
Joyeux Anniversaire, Mme. Moreau!
(Foto: Reprodução)

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

"Meu nome é Tony eu construí um instrumento!"

Ler este post não vai fazer a menor diferença na sua vida. Ainda que você não seja obtuso o suficiente para clicar no link do My Space e tentar entender por ali o que estou falando, o lance é que vou lhe dar um bom motivo para que me demitissem, se isso fosse um emprego e eu não fosse meu “chefe”.

Simplesmente não é possível colocar em palavras a experiência da noite de ontem, num Milo razoavelmente lotado (e com a habitual competência e elegância sonora do Centro Cultural Batidão). Era Tony da Gatorra, com um show para – por mais paradoxal que isso passe a soar ao longo do texto – dar um chute no traseiro na mesmice de indiezinhos que se reproduzem à exaustão e bandinhas cariocas metidas a engraçadinhas.

Nada te prepara para ele; e olha que te falam um bocado. “É pós-punk”, diz alguém. “O Daniel Johnston brasileiro”, fabulam. E de repente um senhor com ares de hippie véio, de longos cabelos grisalhos, muito lisos, que até então estava distribuindo sorrisos entre fascinados interlocutores, quase nenhum com mais de trinta anos, se dirige ao palco improvisado, rés-do-chão, e começa a colocar roupas e apetrechos. Colares são distribuídos (há dois músicos o assessorando), roupas coloridas. Um ar “hippie-kitsch” (diria Vânia Goy) domina a cena.

A platéia distribui-se em sucessivos círculos concêntricos. Nos da frente, o que parece ser uma legião de fãs fiéis. Devotados, aparvalhados, fundamentalistas e irracionais como só os verdadeiros fanáticos por algo ou alguém podem ser. E há moleques fantasiados, barbudos ensimesmados, garotas magrelas vestidas de preto, tiozões com pinta de ex-hippies hoje aburguesados. É tão democrático que chega a ser ademocrático – é a negação da democracia. É a negação de qualquer forma de poder, hierarquia ou gestão por instância superior. É a exaltação plena da idéia de liberdade.

Tony tira seu sustento do conserto de aparelhos eletrônicos em Esteio, “a Osasco de Porto Alegre”. Envolvido com as bandas locais desde a década de 60, queria ser músico e botar pra fora o que passava por sua cabeça ­– e coração. E o que ele fez? Criou um instrumento: a gatorra. Aqui também me declaro incapaz de descrevê-lo. Pare de tentar se convencer de que essas bandinhas que se revezam entre as boates da cidade têm alguma importância e vá ver o Tony. Esse é um cara que vai fazer algum sentido.

Tony é pós-punk. É o Daniel Johnston brasileiro. É o creme resultante de Raul Seixas, Alan Vega, Arthur Lee, Sonic Youth e DNA batidos num liquidificador. É um Messias da não-música. Um Antônio Conselheiro. Um xamã, um chefe Apache. E também não é nada disso. Não vem de lugar nenhum, nem aponta tendências. É um ponto fora da curva. Um negativo de uma canção rodada ao contrário. Um anti-artista.

É como as pinturas de Magritte. Pense em O Império das Luzes, pense em Dois Mistérios – essa é a música de Tony da Gatorra. Uma poesia que se ancora em outras referências. O cerne de sua música não é a tradição. Sua essência se conecta com a ancestralidade. É essa a beleza que não está ao alcance da (muitas vezes aparentemente inexistente) sensibilidade dos sete ou oito idiotas de plantão que estão lá para rir e fazer chacota. Deus está nos detalhes, e idiotas não são capazes de apreender detalhes.

Se a idéia de ser “importante” não estivesse tão distante dos anseios de Tony ele talvez concordasse quando digo que ele é um profeta do óbvio. Em um mundo míope, só a pureza absoluta de propósitos é capaz de nos mostrar o que está a um palmo de nosso nariz. E, afinal, é o que está imediatamente à frente que nos faz tropeçar. Ele funciona como um catador de pedrinhas a mostrar um caminho menos doloroso para nossos pés.

Em última instância, o que unia um grupo tão heterogêneo numa noite chuviscosa de quinta-feira era a condição humana inerente a todos ali. E é justamente sobre isso que Tony está falando. Amor, paz, vida, luz. Seus signos não são novos para ninguém. O que importa não é o que ele diz, mas como ele diz.

Vá a um show de Tony e enxergue a beleza que está na crueza daquilo tudo. Veja como as gatorras parecem cintilar como os peixinhos dourados de Aureliano Buendía. Seus discos vão fazer outro sentido.

(ps: lamento profundamente não ter feito fotos no show de ontem. Se alguém tiver e se dispuser a cedê-las, ficarei extremamente agradecido)


(Foto: Divulgação)

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

It's all about fucking

A verdade é que Freud estava certo: é tudo uma questão de sexo. Olhe para essa sociedade doente, míope e superficial que nos circunda (E aqui sem moralismos! A coluna nada tem contra o sexo; aliás, tem tudo a favor) e constate. Há falos por todos os lados. Fama, dinheiro, status, poder – é tudo sobre conseguir mais e mais sexo.

À parte a questão, digamos, técnica – o nível excepcional de seus integrantes e seu carisma magnético –, é possível observar e utilizar o caráter simbólico para explicar porque os Rolling Stones são a maior banda de rock da história. O fato é que os Rolling Stones são essencialmente uma banda que fala sobre sexo, que transpira sexo, que vive pelo sexo.

Deborah Curtis, no livro Carícias Distantes, conta que seu falecido marido Ian Curtis, a alma do Joy Division, dizia que gostava dos Rolling Stones para se aproximar de uma turma de rapazes mais velhos. “Era viril gostar mais dos Rolling Stones do que dos Beatles”, escreve. É exatamente isso.

Ouça December’s Children (and everybody’s), obra-prima lançada em 4 de dezembro de 1965. Sinta como o grupo soa másculo, dos vocais empedernidos de Mick Jagger à bateria marcada e suingada de Charlie Watts (uma verdadeira aula de como um baterista pode soar forte sem precisar – nem de longe – ser performático). Um furacão.

A banda esbanja desfaçatez, em canções poderosas como Talkin’ About You, I’m Free e a clássica Get Off Of My Cloud. Se não apresenta o porte e a segurança que vai atingir nos anos 70, compensa com o ímpeto e a agressividade da juventude. É a época em que o sangue negro escorre sem obstáculo pelas veias dos Stones. Brian Jones está lá, com suas guitarras impertinentes. Fã declarado de Robert Johnson, dividia uma paixão fervorosa pelo blues com o colega e amigo (condição esta que destoava da relação com o resto da banda em seus últimos meses de vida, em 1969) Keith Richards, o que marcou profundamente o som do grupo nessa fase.

E, convenhamos, foi uma semana e tanto para a música. Um dia antes, em 3 de dezembro de 1965, os Beatles lançaram Rubber Soul, o disco que começa a transparecer a mudança de rumos da banda para paragens mais ousadas (basta dizer que o disco anterior é Help!, não exatamente um primor em termos de novidade e consistência, que dirá de genialidade). O terreno começava a ser preparado para Revolver e a grande revolução de Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band.

A sensibilidade de Deborah Curtis se mostrou muito bem apurada. Enquanto Paul e John cantavam “Baby, you can drive my car”, Jagger não saía por menos de um “I’m free to do what I want any old time” ou “Yeah, I’m moving on / I’m through with you / Too bad you’re blue / I’ll move on”. Sacou a diferença?